Carta aberta a um curador de banqueiro.

 

E-mail de Contente a raphaelfonseca@gmail.com

Oi Raphael, bom dia. Recebi o seu áudio[i] por whatsapp, apressado e urgente e lhe respondo com calma por aqui.

Então, o trabalho "Interview with the green (Entrevista com o verde)” que é composto de quarenta e quatro quadros contendo desenhos e incluído na coleção José Olympio e escolhido para a mostra mencionada no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro em fins de março de 2021, não está disponível na internet, tampouco pretendo disponibilizar a leitura da obra completa na rede. Logo desconsidere a ideia que você teve de colocar um código QR ligando cada quadro à uma cópia traduzida em português na internet.  A versão da obra em português não se encontra disponível. Creio que a melhor opção é deixar do jeito que está, apenas em inglês. Pode ser que até faça mais sentido, pois assim soará mais agrário-cognitivo-exportador.

Se você deseja saber o que realmente sinto – ao contrário do que se espera- é nojo, embrulho no estômago de ver meu nome associado a este colecionador, nesta hora que o país atravessa.

Esta obra "Interview with the green (Entrevista com o verde)” foi vendida ao sujeito por volta de 2006 ou 2007 - venda agenciada pela galeria de arte que me representava e com a qual rompi definitivamente qualquer relação em 2016 – Naqueles anos vivemos um momento de euforia e de aparente conciliação entre as classes sociais. Aparente, pois nessa hora os banqueiros nos endividaram e aceleraram seus lucros em patamar recorde no hemisfério sul do planeta Terra. Este fofo pacto social foi rompido desde cima e atualmente, sem a menor vergonha na cara, o setor financeiro aposta na extrema direita que desmonta e empurra o país para o abismo – ou pelo menos nós, o povo que o habita, para vendê-lo melhor e lucrar horrores.

Hoje o Sr. José Olympio é anfitrião de Bolsonaro e aplaude a fala de Paulo Guedes em evento da Credit Suisse, da qual é presidente, ou CEO de operações no Brasil. Aliás, não é de hoje. No ano passado celebrou a fala de Guedes sobre fazer o programa de privatizações deslanchar por meio da venda de ações. Guedes e bozo, dois genocidas - cada um de um jeito. Enquanto um, mata pela bala, pela apologia à morte ou pelos grupos de extermínio - o outro o faz por deixar morrer. Laissez-faire, laissez-mourir:  de fome, de doença, depressão, desemprego, falta d´água, de leitos ou baleadxs “por engano” pelo Estado.  Bozo, apologista da tortura. Guedes, ex-consultor de Pinochet. “Onde há crise há oportunidades”, dizem os porta vozes do “Deus Mercado”: genocídio, queimadas, desastres ambientais, assassinatos de quilombolas, periféricos, negras, negros e povos originários (assim chamados indígenas); quebra de direitos sociais; crimes de proporções incalculáveis. A “mão invisível do mercado” está armada e assaltando um país rendido. E o Credit, como o nome diz, provavelmente vai parar na mão dos Suisse.

Sabe qual é a melhor montagem da minha obra nesta exposição? É não montar. Nem incluir ela na mostra. Mas isto não é problema meu. Ela é de posse do colecionador.  E você possui a escolha de incluí-la ou não. A decisão é sua.  

Mas antes, pense aqui comigo: a quem interessa exposição de uma coleção privada, no centro cultural de um banco estatal à beira de ser privatizado no exato momento em que estes agentes do mercado financeiro enunciam este desejo abertamente na grande imprensa?  E ainda por cima no ápice de uma pandemia com milhares de mortos ao dia. Um holocausto de nenhuma comoção. Quem será o público desta grande troça, deboche, desfaçatez e escárnio com a população brasileira? Esta festa podre. Eu, seguramente não serei.

 

Depois não adianta “expiar a consciência culposa” colando adesivo no peito escrito “Ele Não”, ou se chocando com falas homofóbicas em Brasília. Quem vai decorar a patológica ostentação de “elegância, sofisticação & bom gosto” deste sujeito em meio a destruição de um país, é você.

José Olympio & a sua laia de terroristas financeiros são o câncer do planeta.

Sinceramente,

Carlos Contente.



[i] Áudio de Raphael Fonseca á Carlos Contente em 17 de fevereiro de 2021, ás 11:18 am.

 

R.F.: "Oi Contente, ééé, enfim, na verdade a gente se conhece né, a gente se conheceu várias vezes inclusive você foi na minha festa de casamento (risos) que o (Rafael) Adorján te levou... eu lembro disso, tem uns sete anos, sete? Seis? Sei lá...  Olha eu tô entrando em contato por uma razão muito precisa:eu tô fazendo uma curadoria da coleção José Olympio, da Andreia e José Olympio e essa curadoria vai acontecer no Centro Cultural Banco do Brasil no final do mês de março e enfim é uma curadoria em que basicamente eu olho para a coleção deles e penso em algumas questões, alguns agrupamentos de trabalhos e enfim, vai ser no primeiro andar do CCBB daqui do Rio. Então, um trabalho seu, que eu gosto muito e que eu lembro que quando eu comecei a fazer graduação em arte eu vi em exposições e tal... que é o "Entrevista com o verde" - eu sempre esqueço se é entrevista com o verde ou para o verde. Só que acontece que a versão que eles têm do trabalho é em inglês. Eu queria conversar contigo sobre dois assuntos. Primeiro para entender se a versão em inglês é exatamente a mesma da versão em português. E segundo é o seguinte, eu tive uma ideia que é: como a gente sabe muito bem que o público do CCBB não é obrigado a saber ingles, eu tive uma idéia que é oferecer para o público a oportunidade de ler o trabalho em português. Como o trabalho é muito grande e se eu for traduzir isso na parede do CCBB vai ficar muito poluído/muita informação em português eu tive uma ideia que era ter um QR code que as pessoas pudessem fotografar com o celular e acessar a versão em português. Então queria te perguntar se você acha que essa ideia é OK para você e outra coisa que eu queria te perguntar é se você teria uma versão em PDF, sei lá, alguma coisa assim, do trabalho em português porque aí o ideal é que a pessoa...né? Use o QR code, clica ali e abre a versão em português e pode passar pelas imagens com ela em português e acho que o formato PDF seria mais prático né, cada página um trabalho. te perguntando isso porque, porque eu não sei se a versão em português do trabalho está contigo ou se está com algum outro colecionador, eu não sei como é que isso - eu busquei e busquei na internet e não consegui encontrar o trabalho inteiro, nem em português nem em inglês mas foi a melhor solução que eu pensei aqui para não poluir muito a exposição. E aí no último dos casos, enfim, né, se a gente não puder... ou sei lá o quê, a gente mantém a versão em inglês na parede e paciência. Mas eu adoraria que quem não lê inglês pudesse ler o texto, eu tô com alguma urgência com isso mas enfim, só me avisar."

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